Onda

A última vez que nos vimos foi no Natal do ano passado. Estávamos na casa da vó, uma celebração caricata porque metade da família já não se falava. Tio Jair vociferava ódio e maluquice enquanto despejava cloro vencido sentado na esquina da piscina. Você levantou da sua cadeira de sol, veio pela fronteira entre água e piso antiderrapante, forçou um deslize e foram os dois para dentro da água. Mais tarde, você confessou que nem o peru da tia Maria foi tão bom. Quando os mais velhos já se esparramavam pelas cadeiras, divididos entre cochilos e  embriaguez,  as crianças fazendo pilhas de papel de presente, nós saímos para caminhar pela estrada em frente ao sítio. Você me contou sobre a separação, como Marcelo já não morava mais no apartamento há meses, que Júlia dizia com a boca cheia de arroz e feijão que te odiava. Suas lágrimas caiam grossas, marcavam a rua de terra e desapareciam rapidamente. 

Agora, sentada no portão de embarque do aeroporto em Londres, penso na Julia jantando com o Marcelo, será que ela vai vociferar raiva infantil?. Estou tentando embarcar para o Brasil há uma semana. Meus pais vieram me visitar em Barcelona, depois fomos passar alguns dias em Londres. Fiquei trabalhando da sala do pequeno apartamento que alugamos por uma semana. A onda atingiu a Europa. Como jangadas na tempestade, um a um, os países foram afundando, fronteiras foram fechadas, o caos implantado. Foi tão imprevisto como a ligação que minha mãe recebeu às 4:37 da manhã. Ela colocou o telefone na mesa, num gesto lento e imenso, parecia que tentava calcular opções. Falhou. A noite de Londres não ouviu o lamento que ela ciciou. Você havia morrido. Sua saúde deteriou rapidamente, os médicos te enviaram para morrer em casa, com morfina, sua filha e seus pais. Veja, a morte não tem ética alguma, apenas método aleatório. Você era jovem, dois anos mais nova que eu. O computador está aberto, na nuvem estão fotos de família que digitalizamos juntas há alguns anos, um projeto para manter a memória de nossa estirpe disponível para futuras gerações, pois fotos, assim como taças de vinho, sempre são perdidas. Nossas mães gostavam de comprar roupas similares para nós. Estou montada numa pequena bicicleta de plástico, sorrindo, um tufo de cabelo repousa sobre meu olho esquerdo, visto um abrigo vermelho com botões dourados, pareço uma pirata, almirante talvez. Você também veste um abrigo vermelho, sem botões dourados, com punhos pretos, empurra um pequeno carrinho de bebê, sua boneca toda de branco, com um cabelo preto azulado, parece uma atriz dos anos setenta. 

Espero que esse voo nos leve ao Brasil. São sete dias com o celular apitando várias vezes ao dia com novos emails da companhia aérea, atualizando o status do nosso voo de volta. O primeiro foi cancelado um dia antes, o segundo três horas antes, este fará uma parada de doze horas em Barcelona, depois rumará para São Paulo. Nossas malas cansadas de serem feitas e desfeitas, os pijamas confusos entre horas insones e horas na escuridão abafada da mala. O sistema de transporte inglês, famoso por sua pontualidade, nos últimos dias foi assolado por incerteza. Tive que trocar nossos bilhetes de trens até o aeroporto inúmeras vezes, acabei vidrada no site, vendo horas de partida e chegada, destinos e conexões. Pensava se outras famílias também estavam presas, se outras primas haviam morrido, se funerais aconteciam sem choro, sem abraços, se é que os funerais aconteciam. A onda não lhe proporcionou nem isso, uma despedida. Não nos abraçamos, não choramos, não houve discussões e antigas rivalidades afloradas pela dor. Nada. Você virou um punhado de poeira, armazenada dentro de uma urna de porcelana. Lembrei agora, vendo fotos, de uma reunião de família, páscoa talvez, em que você quebrou um vidro de batatas em conserva, azeite, óleo, ervas, cebolas pequenas, dentes de alho, batatas, todas avançando lentamente sobre o piso de cimento queimado. Os pedaços de vidro reluzindo oleados. Espero que ninguém derrube seu pote de batatas. 

Quando nosso avião estiver no céu você também estará no céu, suas cinzas serão lançadas no Brasil, para sempre estará alocada em todos os cantos do mundo, no Atacama, nas Filipinas, em Fiji, na Serra da Capivara. Dentro do trem, enquanto me dirigia para o aeroporto pela última vez, a cidade de Londres permanecia igual, chá e pints eram tomadas, a guarda real estática na porta de Buckingham, o Big Ben confirmando a existência do tempo. Londres não sabe que você morreu, o maquinista não sabe, as aeromoças não saberão. Você morreu, você está morta. Escrevo para tornar sua morte real, leio para tornar sua morte memória. Não te vi, não acariciei seu corpo gelado, não garanti que borrifaram teu perfume predileto, que seus lábios estavam vermelhos e aveludados, suas unhas pastéis. Não pude te perder. A perda existe mas sem o processo da perda, é como se colocassem uma porta numa casa inexiste e quando abro a porta já estou dentro da casa pronta, mobiliada e com amigos me esperando. 

A última vez que nos vimos foi no natal. Quando voltávamos da estrada de terra, pegamos cervejas, sentamos na beira da piscina, cantando junto do Gil. Desde que você morreu, pouco falei. Tenho medo de minha voz vibrar tua perda. 

Isenção

Paulo

Os pretos invadiram todos os bons bairros dessa cidade. Vivem em casa de alvenaria com laje, energia elétrica, água encanada. Preto, haitiano, bicha e puta, vivendo no meu bairro. Na casa ao lado uma mulher que abandonou o marido, a Igreja e Deus. Em sessenta e quatro o povo unido salvou o Brasil dessa praga comunista, desses ateus abortistas, dessas putas que vestem saia curta e depois reclamam que são estupradas, que querem abortar, desses bichinhas que não apanharam o bastante quando crianças e agora vivem beijando homem barbado. Chegou a hora de agirmos, combater tudo que tá aí. A Bruna, essa puta, nunca mais vai levantar a voz pra mim, fazer boletim de ocorrência na polícia corrupta, que não acaba com baile funk e foi tomada por esses direitos humanos. Vou cumprir a missão que Deus me deu, que o Brasil precisa, meu nome será lembrado, outros virão depois de mim. Anauê, anauê. Camisas verdes unam-se. Deus, Pátria, Família.

Henrique

Hoje vou encontrar o Pedro. Acho que já tem um ano que eu não vejo ele, desde o enterro do papai. Ele deveria agradecer, meu pai deixou quase toda a herança para mim. Estou fazendo a divisão correta mas no fundo sei que ele não merece. Depois de tudo que ele fez com o pai, todo desrespeito. Como quando anunciou para o pai que era gay, depois de eu repetir várias vezes que ele não deveria fazer isso, que ele poderia viver como quisesse mas que respeitasse o pai. Pai era um homem católico e conservador. Pedro jamais entendeu ou aceitou que papai cresceu em outra época, outro mundo. Para o pai nós tínhamos que ser machos e provedores. Quando eu fiz dezoito anos ele me levou para o puteiro, falou pra mulher me educar, fazer de mim homem. Quando o Pedro fez dezoito pai tentou fazer o mesmo, não acreditava que seu filho realmente gostava de homens, era falta de uma mulher experiente fazendo o que ela sabe de melhor. Foi um horror. Pedro saiu gritando dentro de casa que era gay, que já havia transado com amigos no quarto, no sofá, até em frente da imagem de Jesus Cristo. Depois, perto do vestibular, o pai disse para eu estudar Economia, meu irmão Engenharia. Pedro, se revoltou outra vez, queria estudar Letras. Saiu de casa e começou a morar no alojamento da universidade. Ficamos dois anos sem conversar, ele me culpava, dizia que eu nunca o defendi, que pai fazia piadas racistas e machistas com nossa empregada, que pai era homofóbico e tudo mais. Eu falava Pedro, pai cresceu em outra época, tenha paciência, não é fácil pra nenhum dos dois. Ele não quis saber. Pai adoeceu, teve um derrame, ficou meses no hospital até morrer. Pedro apareceu umas duas semanas antes de sua morte, dizendo que havia casado com um homem, que estavam morando juntos, que não perdoaria ele por todo o ódio e preconceito que sempre teve. Falou que não sentia amor algum por ele, que o pai era tão desimportante que nem inimigo era. Pai ficou furioso, desonra, pária, bicha, foram palavras que vociferou. Agora tenho certeza que meu irmão precisa de ajuda psicológica

Paulo

Esse é meu manifesto. Templários, monarquistas, camisas-verdes, unam-se. Não leiam jornais, são mentirosos e comunistas. Irmãos, lembrem-se: a mídia corrompe os valores sagrados da Família e de Jesus Cristo, apregoam que nós, arianos, somos iguais aos africanos que pesam sete arrobas, aos chineses que infestam nossas capitais. A TV degrada a moral da nossa sociedade, incentiva o sexo infantil, o homossexualismo, o feminismo das encalhadas feias. Nossa causa é apenas uma: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Farei isso pelo meu presidente, homem justo, meu capitão, meu presidente, anauê. Começamos a revolução hoje. Acabar com os bandidos, bichas e putas. Restabelecer o direito supremo do homem sobre a mulher, como na bíblia, restabelecer a ordem nas ruas, ensinar civilidade e tradição cristã nas escolas.

Pedro

– Rodrigo, hoje vou encontrar meu irmão na Paulista, tá? Estou saindo de casa agora, até mais tarde. Vou pegar o metrô. Trago algo para você jantar. 

Paulo

Chegou o momento. E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Visto meu uniforme, calça e gravata preta, camisa verde. Levo a bíblia, armas carregadas. Embarcar no metrô, ir à Avenida Paulista, iniciar um novo capítulo no nosso movimento, na história do Brasil. Anauê. Deus, Pátria, Família.

Henrique

Pedro está atrasado, outra vez. Não tem compromisso com nada. Poderia ter pego um táxi, eu pagaria. Se bem que o trânsito está horrível. Todas essas viaturas na rua, ambulâncias e helicópteros. Esses loucos sempre se matam na linha do metrô. Ou talvez seja algum protesto dos extremistas de esquerda. Tudo vira protesto e passeata neste país, coisa desnecessária. São jovens cheios de ideais e utopias, igual meu irmão. Acreditam que podem mudar tudo de um dia para o outro, na base do grito, indo protestar, pedindo mais respeitos e diversidade. Eles não estão errados nem certos, mas não apoio baderna. Tem que ir com calma, a sociedade é velha, conservadora. Daqui alguns o país será mais jovem e tudo será melhor. Falo isso pro Pedro, não me ouve. Não responde minhas mensagens, não atende minhas chamadas. Deve estar no metrô. Pelo jeito alguma coisa aconteceu, os bombeiros estão carregando macas para fora da estação, os policiais fecharam a rua.

Lucia

Eu nunca mais verei macacos. Ou lesmas, pássaros, vaga-lumes. Serei sempre a Lucia cega, a Lucia-que-ficou-cega-em-Berlin. Quão estúpido é ficar cego nas férias? De algum jeito, sempre soube. Eu detesto viajar, nunca entendi porque pessoas visitam lugares por um par de dias e voltam dizendo “eu amei Praga”. Ou Roma, Salvador, Buenos Aires. Como podem amar uma cidade sem nela viver? Vivendo num hotel, cama ampla, comida ao alcance de uma chamada, eu seria até feliz. Vou me perdendo, eu nunca gostei de férias, filas, portões de embarque, aperto no carro, no ônibus, no avião. Mais espera, sorrisos e “sejam bem-vindos”. Aposto que no inferno tem alguém dizendo “bem-vindo e aproveite suas férias”. Eu nunca mais vou ver macacos. Tudo por causa dessa maldita viagem. Paga em doze vezes, mais doze meses para pagar o câmbio no crédito. Outro aspecto que não gosto sobre viajar são os gastos, somos obrigados a gastar dinheiro com coisas corriqueiras. Sorvete, café, museus, lanches, restaurantes. Toda cidade tem tudo isso, por que viajar para provar o mesmo?. A vida não faz sentido, não verei mais macacos. Como explicar a cegueira? Como explicar que na fila do museu, enquanto o mundo fazia ploc-ploc, escorreguei, bati a cabeça e, num lance tão raro que até me tornei especial, fiquei cega? Além de tudo, serei vista com a curiosidade que eu enxergava os cegos. Será que eles choram cortando cebolas? Como sabem quando o queijo embolorou?. As pessoas vão tentar ajudar, serão amigáveis, sentirão pena da mais nova cega. Pensar que até gostava da escuridão. Quando tenho enxaqueca pressiono o globo ocular com força, até na escuridão brilhar uma luz, a mais pura que já vi, então o alívio da dor. Vou ter de reaprender a falar, escolher bem os verbos para expressar ideias e sensações. Nada de o céu está cheio de estrelas, você viu a tia Carminha?, nada que use os verbos ver, enxergar, avistar, mirar, observar. Voltando. Sim, eu fiquei cega caindo num museu. Lesão no lóbulo occipital. Foi o que a tradutora me disse quando sai do coma, dois dias depois do acidente. Era um brasileira com forte sotaque alemão, sejá lá o que isso signifique. Nunca mais sairei de férias, nunca deveria ter saído de férias. Cega, o cartão de crédito atrasado e nunca mais verei macacos. Prazer, sou a Lucia-que-ficou-cega-em-Berlin. Nunca mais verei macacos.

The life cycle of the Atlantic salmon

Summer

Guided by its olfactory memory

the Atlantic Salmon hoisting

its red body to the river where

it was born, a killer that needs

to revisit the local of his crimes.

From the ocean to the estuary, facing

bottlenose dolphins that attack them

as a shiver, hurling its 500 kg from the sky

to the sea, inebriating the salmons with salt and death.

br

Autumn

Oak leaves fall before its skins

become wine barrels. On the riverbed,

the salmon, its body saturated by hormones,

lose the old asphalt colour, returning to

the genesis hue. At the waterfalls, they jump

up to three meters, one and another time,

a lumberjack chopping ebony, until triumphing.

br

Spring

Dorsal fins band together. The female, marked

by black spots above the lateral line,

builds a nest shovelling its tail-crusher.

The invisible pheromone attracts suitors.

Their bodies vibrate with rapture and fatigue,

the tango is complete. Eggs fertilized and secured,

viscous and united. Exhausted and hungry, many die

in the old cradle. Others, languid and taken by

fungus, return to the ocean, once again.

br

Winter

Scotland’s mountains are covered with the sweetness of snow.

The river freezes here and there. At the riverbed, pink

zygotes sleep calmly in the motherly fortress.

br

Summer

The thin and translucent membranes rest passively.

Inside the cocoon, life cramps began.

The tiny salmons move and dance placidly

until to break out of motherly protection. They’re free.

The shoal remains packed. Fins grow, their skin is colored

by the bottom of the river, later astaxanthin.

They hunt insects, learn about the death plunge of birds.

While they grow, they memorize the river layout,

the position of the rocks, the salinity of the

water. Someday, a few will come back.

O fim do mundo é agora

Não caem bombas deste céu em guerra.
Nas ruas, de mãos dadas, milicos e republicanos.
Não há tanques nas ruas, nem automóveis.
Nas ruas apenas o vírus?
As quitandas fecham cedo.
A barbearia, a tabacaria, os bares: nem abriram.
São tristes essas ruas.
Os milicos mandam os republicanos para casa.
Não agridem. Mas ternura não é ensinado nos quartéis.
Aplaudem das terraças, soltam fogos, bradamos heróis.
Não conheço heróis, somos todos malditos.
São tristes esses balcões.
Há tantos mortos, somos todos estupidos.
Não aprendemos contabilidade.
Algum dia aprende(re)mos algo?
Abro os dicionários, encontro três substantivos:
bomba, peste, merda.
Uma rosa feia rasgava o asfalto.
Veio o milico e pisou nela.

morte da infância

1.

Retornando da escola

encontrei a porta trancada. 

Faminto e sem chaves,

irado açoitei o gato.

Seu corpo esquálido

espiralou no voo.

Fustigado pelo remorso

molhei sua face macia.

Alimentei-o com biscoitos,

whiskas sachê e leite. 

2.

Feri um inocente

movido por ódio.

Voltei à escola.

Nunca mais fui criança.

uncle tony

uncle tony
came from the desert
not touching anyone
afraid of bodies
escaping as sand

uncle tony
came from the war
as a vegetarian
after killing a man
meat and flesh tested all the same

uncle tony
came from the sea
after fishing for years
the bright smell of salt
never left his cheeks

uncle tony
came from the library
with a pile of botanic books
seeking to translate a dream
into a white orchid

uncle tony
came from a flight
unknowingly deaf
finally reaching stillness

erta ale

erta ale

there is an unfathomable land of fire,

true gateway to hell. dante was wrong

because hell is not only damnation.

yet, here in this life of heavy labour, sweaty

shirts and swollen hands — flesh changes,

black skinny torsos become capable

of great strength, mining under the hottest

sky on earth, mining what machines have 

long failed to achieve. lava’s pressure 

opens spots on the ground, expelling

rocks on fire into the sky — untraceable 

comets of earth’s inner heart. breeze 

bears the roar of a lava ocean, streaming

under their feet, as they walk across 

a path drawn of frozen magma. night

falls endlessly towards the gateway, which 

glows as a firefly, guiding stars and spirits

of the deceased and forgotten into life again.  

Alucinação

navegar outros corpos

aportar em outros seios, ancas, umbigos

banhar o corpo em seus suor

manchar a pele com seu sangue

fim de amores e paixões por metades

construir oligopólio de corpos

ainda que por uma noite 

transgressora e selvagem 

ter o corpo vasculhado por outros tatos,

paladares, na extensão de horas fluidas,

palco para tantos e todos os gozos 

trabalhar a língua no dorso, inventando novo idioma

vasculhar as dobras de sua alma, investigar

a curvatura das nádegas, o raio da sua boca

com dedos escalar a razão, chegar ao cume

da perdição, onde abre-se o vale da lascívia

adubado com seu sêmen, transudação dos lábios

chupar não apenas corpo e sexo

também o coração, a alma. uma noite 

de loucos amantes, heróis e profanos